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Quem conhece a trajetória do
publicitário João Daniel Tikhomiroff desde os tempos da Jodaf (produtora)
sabe de seu talento, responsável por filmes memoráveis e premiados no
segmento que atuou ao longo da vida. Por outro lado, quem não se liga em
publicidade e gosta de cinema, vai ter a oportunidade de ver
em Besouro, seu longa de estreia, muitos de seus atributos, mas pode
sentir falta de um visgo mais pegajoso na trama.
A história acontece no passado, fala da
vida dos negros, mostra que mesmo com o fim da escravidão, o ‘trabalho’
continuou nos canaviais e plantações, e a capoeira, luta disfarçada de
dança praticada por eles, era marginalizada pelos brancos. Inseto que
provoca as leis da aerodinâmica por sua capacidade de voar, no cinema
Besouro é um jovem que desde pequeno aprendeu com um escravo, o ancião
Mestre Alípio, as manhas da capoeira e tornou-se uma fera da arte
marcial. Mas cuidado com o ‘rabo de arraia’. Porque se a sua expectativa
era encontrar um filme de ação baseado na luta, o golpe pode ser fatal.
O filme abre com um som que muita gente
já deve ter ouvido pelo menos uma vez na vida: o bater de asas de um
besouro. Para situar o espectador, insere na tela créditos históricos e,
como não poderia deixar de ser, introduz a luta na telona. E para por aí.
Este, talvez, seja o maior problema do roteiro. Dividido entre apresentar
conteúdo e fazer ação, Besouro sobrevoou um pouco de cada e ficou
devendo.
O filme apresenta elementos que podem
agradar o público como boas cenas de ação com toda a plasticidade que a
luta já oferece, aliada ao apuro técnico da coreografia – em sua grande
maioria - de bom gosto. O que faltou mesmo foi deixar pegar embalo. O
longa, por exemplo, tem um monte de frases de efeito para conferir peso à
trama como “Preto é para a vida inteira”, “não existe o bem sem o mal”,
“o herói nasce quando o inimigo vacila”, mas elas soam soltas. E não é
pelo fato de serem ditas por atores desconhecidos ou pelo off do
narrador, mas pela falta de uma ginga propulsora na trama que envolva o
espectador. Sem contar que o nome do personagem é repetido tantas vezes
em alguns momentos que parece recurso de novela.
O destaque no elenco vai
para Irandhir Santos (Noca), convincente como vilão. E
curiosamente é ele quem profere duas frases preconceituosas que, salvo
profundo desconhecimento histórico deste que vos escreve, são atuais:
“preto quando não faz merda na entrada, faz na saída” e outra alusiva a
junção de “pinga e galinha preta que é macumba na certa”.
Assim como a parte mística do candomblé
e seus Orixás foi muito pouco explorada, sobrando para um inexpressivo
Exu com voz gutural e a rápida aparição de Iansã, o roteiro deu mais um
golpe fraco ao apresentar um batido triângulo amoroso, igualmente
superficial. Felizmente, as breves cenas de romance são de bom gosto, a
de sexo, moderada, e o ponto alto vai para o bom resultado quando eles
‘jogam’ capoeira amorosamente. É inegável a qualidade da fotografia e a
câmera estilosa do diretor. A trilha é boa e a música tema (Cordão de
Ouro) levada pelo grupo Nação Zumbi tem pegada de hit.
Besouro foi baseado em um livro
sobre um capoeirista nascido em Santo Amaro da Purificação, lá no
recôncavo baiano, terra de Dona Canô e seus célebres filhos Caetano e
Bethânia. E foi, realmente, uma pena voar tão baixo num universo rico em
misticismo e personagens, resultando num filme bem produzido, mas sem
ritmo e que dá a nítida impressão que poderia ser diferente. A sensação
que se tem é que assim como o inseto na vida real, Besouro no cinema
quando cai de barriga para cima também demora a levantar.
Nota 9,5
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