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Não sou um fã incondicional de Tintim
que conheci em minha infância, primeiramente em quadrinhos e depois nos
desenhos exibidos ao ocaso, na TV Cultura.
Quando soube que as aventuras do
repórter seriam transportadas para o cinema pelas mentes e mãos dos
mestres Steven Spielberg e Peter Jackson, imaginei que poderia ser apenas
mais uma dessas maravilhas tecnológicas do mago Spielberg e, por mais
estranho que lhe possa parecer, fiquei com um pé atrás ao acompanhar o
notável declínio do diretor de clássicos como Tubarão e E.T. – O
Extraterrestre ao vê-lo envolvendo-se em projetos de gosto discutível
tais quais as séries Falling Skies e Terra Nova. E com a chegada de
Cavalo de Guerra, outra produção recente de Spielberg, temi pela
sobrevivência de Tintim longe da telinha. Porém, meus receios não se
concretizaram, felizmente. 'As Aventuras de Tintim' é o que há de melhor
nos contos de Hergé somado à habilidade de Spielberg como não se via há
anos.

No filme, conhecemos o jovem repórter e
seu simpático e esperto cachorro Milu. Juntos, os dois embarcam em uma
sombria investigação que logo se desenvolve para um excitante jogo de
gato-e-rato ao redor do mundo, logo que Tintim adquire uma réplica de um
navio numa feira. Auxiliados pelo Capitão Haddock, e os detetives Dupont
e Dupond, a dupla mergulha cada vez mais fundo nos mistérios que cercam o
passado de Haddock e o navio Licorne.
Dotado do mesmo espírito que a série
animada possuía, 'As Aventuras de Tintim' já revela suas pretensões nos
créditos iniciais, nos levando ao passado através de uma máquina de
datilografia e recriando desenhos que remontam o personagem apenas em
sombras. Dali já era possível depreender que Jackson e Spielberg nos
brindariam com uma aventura nos moldes antigos, sem a necessidade da
barulheira e ritmo desenfreados das produções de hoje em dia. Não que à
obra falte ação – muito pelo contrário – apesar de intensa e frenética do
início ao fim sem jamais precisar do caos que se instaurou nos filmes de
ação atuais. Portanto, mesmo sem permitir que o espectador respire, o
filme consegue ser elegante ao longo da uma hora e quarenta e sete
minutos principalmente pela liberdade com a câmera e com o feito pós
gravação – falamos então do projeto digital.

Através de sua potente imaginação e sem
o peso de um maquinário nas mãos o tempo todo, o diretor usa e abusa de
movimentos de câmera que não só ligam um ponto a outro do filme com extrema
criatividade, como nos conduzem a passeios jamais imaginados em uma construção
live-action. Nosso campo de visão ora é levado para as lentes de um
binóculo, ora para um travelling por entre as barras de uma cela, bem
como ultrapassa vidraças e encaixa-se debaixo de armários. As transições
são um personagem à parte da película, já que são capazes de ligar um
bote perdido no oceano a uma poça d’água numa calçada, ou mesmo usar de
objetos de cena, como uma cimitarra, para nos transportar ao passado,
enquanto jurávamos ainda enxergar o presente.
E em se tratando de personagens, a Weta
Digital revela mais uma vez seu poder e de seu criador, Peter Jackson, ao
pôr em tela personas que conseguem ser cartunescas e, ao mesmo tempo, dotadas
de extremo realismo. É sem medo que Spielberg aproxima a câmera dos
rostos de suas criações digitais, já que podemos ver singulares detalhes
como rugas, cicatrizes ou mesmo os fios de cabelo embaraçando-se ao
vento. E muito se deve, evidentemente, às interpretações de Jamie Bell na
pele de Tintim, e de Andy Serkis como Haddock, sempre eficiente e à
vontade na técnica da captura de movimentos. Destaque também para Daniel
Craig como o vilão Sakharine e dos atores Simon Pegg e Nick Frost, que
conferem o timing cômico e a leveza necessária à dupla Dupont e Dupond.
Apesar
do tom cartunesco já citado, é impressionante o realismo da animação,
característica essa que apelidei de “realismo fantástico”, numa óbvia
contradição. Desde os vincos das roupas até detalhes dos cenários, como
as roldanas, correntes e ferrugem de uma embarcação onde parte da ação
ocorre, jamais duvidamos da veracidade da trama, tão profunda e eficaz é
a imersão proporcionada por Jackson e sua equipe. Em um plano aberto, já
perto do terceiro ato, verificamos o navio de Sakharine ancorado em um
porto, e se uma fotografia fosse tirada naquele momento e mostrada às
pessoas do mundo real, certamente muitos se convenceriam que o cenário
visto existia em alguma parte do globo, pois cada cena parece ter sido
planejada nos mínimos detalhes.

Créditos também para a trilha sonora de
John Williams, que dá o tom correto à aventura e acompanha o retorno à
boa fase de seu maestro-mor, Spielberg. As composições se encaixam
perfeitamente aos momentos mais sombrios da trama, bem como àqueles que
necessitam de vibração nas perseguições sem fim. E não há como deixar de
lado o roteiro de Edgar Wright, Joe Cornish e do gênio Steven Moffat – o
cérebro por trás de criações como as temporadas mais recentes de Doctor
Who e a impecável minissérie Sherlock, que põe no chão as adaptações
cinematográficas de Guy Ritchie. Graças ao trio, Hergé pode permanecer em
seu tranquilo descanso.
'As Aventuras de Tintim' não só irá
despertar as crianças (hoje crescidas) que se esbaldavam nas peripécias
do repórter, como, certamente, atrairá um novo público para a obra,
tamanho o cuidado com que Jackson e Spielberg construíram a fita,
envolvendo pelas cenas de ação, bom humor e mesmo a maneira adulta com a
qual a trama é tratada, sem desmerecer a inteligência do espectador. Como
grande filme que é, arrisco a dizer até que o capitão Haddock desbancou
facilmente um tal de Jack Sparrow do posto de mais adorado capitão dos
cinemas, não só pelo fato de que este vinha em um vergonhoso declínio,
como aquele é tudo aquilo que Sparrow foi, mas sem os excessos.
Curiosidades:
F Inicialmente,
o longa tinha o subtítulo 'O Segredo do Licorne'.
F Spielberg
dirige o primeiro e Peter Jackson o segundo filme da franquia. Caso
Jackson e Spielberg não encontrarem um diretor de nível para assinar o
terceiro. James Cameron está em negociações para comandar o terceiro
filme da franquia.
F Os
filmes utilizarão a tecnologia 3D digital de captura de movimentos.
F Jamie
Bell, conhecido pelo ótimo 'Billy Elliot', vive o protagonista. O ator substitui
Thomas Sangster ('Simplesmente Amor'), que precisou abandonar o projeto
depois de atrasos nas filmagens.
F Os
personagens Tintim (um jovem jornalista) e Milu (seu cachorro) apareceram
pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um
suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado aos jovens e
posteriormente acabou ganhando uma série animada.
É uma prova de que sempre existe uma
possibilidade de mudança, basta acreditar no ser humano e no que há de
bom em seu coração.
Nota 8,0
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