Este é um daqueles filmes que conseguiu
marcar época na infância de minha geração.
Conhecer o drama (real) desse leoa, com
“L” maíusculo me encantou quando assisti pela primeira vez e continua me
enantando e emocionando até hoje.
“Elsa,
Nascida Livre”, é um fantástico filme de 1966 que ganhou 2
Oscars, cuja história é ainda tão fascinante quanto na época em que foi
lançado. É a história de uma leoazinha criada por um casal, com o qual
desenvolve um forte vínculo.
A leoa cresce tão afetuosa e presente
quanto qualquer cadela bem tratada. Entretanto, com o tempo, Elsa começa
a criar alguns “problemas”, como quando, por exemplo,
resolve brincar com uma manada de elefantes. Não podendo imaginar suas
intenções, esses animais enormes se apavoram, mudam sua rota e acabam
pisando sobre os campos cultivados de um vilarejo próximo.
Elsa encara a todos como amigos. Foi
criada com carinho, sempre teve comida e cuidados: por que haveria de
atacar? Os outros, porém, têm medo. Logo, Elsa, agora já adulta e pronta
inclusive para o acasalamento, se torna um problema. Das duas uma: ou ela
vai para um zoológico ou é reintroduzida à vida selvagem.
A
primeira opção lhe garante a sobrevivência e a segurança. A segunda, lhe
oferece a liberdade. Na primeira, sua dona-amiga sabe que Elsa será
infeliz, na segunda Elsa pode simplesmente morrer de fome, já que nunca
caçou, ou ser rejeitada pelos outros leões.
Esta é a situação na qual todos nós em
algum momento da vida nos encontramos. Chega a hora em que é preciso
escolher entre entrar numa jaula e viver num zoológico metafórico ou
enfrentar o campo aberto.
Há uma cena tão hilária quanto
dramática que aparece nesse trecho do filme (começando aos 3:45min.). Se
trata do início da readaptação de Elsa à vida selvagem. Na cena em
questão, Elsa avança de pernas semidobradas, quietinha se aproxima de um
animal escuro e baixo que ao vê-la lança-se na fuga. Elsa leve e solta no
começo, acelerando depois, com facilidade o alcança e agarra. Se trata de
uma espécie de pequeno javali com chifres ou talvez caninos, virados para
cima em meia lua, sua arma de defesa. O animal grita pelo susto, mas a
leoa não tem intenção de machucá-lo. Aliás, ela o solta, senta na frente
dele e espera, aparentemente, para continuar a brincadeira. O javali, ao
contrário, solta uns grunhidos de despeito e dá uma chifrada no peito da
leoa. Esta se afasta, perplexa diante da reação agressiva do animal. O
javali ganha velocidade e dá mais uma cabeçada na leoa e assim, de
cabeçada (chifruda) em cabeçada a leoa é espantada pelo pequeno javali,
que claramente está tendo sua vitória e vingança. Finalmente, Elsa desiste
e vai embora. Uma leoa jovem e forte posta em fuga por um javalizinho de
um quarto de seu tamanho.
Essa é uma cena para ser assistida
várias vezes. Inclusive, observando a cara sem graça do dono de Elsa que
testimonial o humilhante ocorrido. A leoa ainda não entendeu, e não
entendeu porque ela não sabe de si. E não sabe de si porque seus
instintos não estão despertos.
Elsa nasceu livre, mas só poderá
conquistar sua liberdade se resgatar seus instintos. E essa é a lição
para todos nós. Nossa civilização criou uma série de códigos de
comportamento que visam assegurar o convívio pacífico, mas que muitas
vezes produzem somente hipocrisia, dominação e mentira. Em nome do bom
comportamento, ensina-se e impõem-se a repressão dos instintos. Todas as
reações não esperadas são tachadas de “ruins”. Adultos e crianças que não
se “adaptam” aos usos e costumes de um grupo são considerados
desagradáveis, quando, talvez, eles simplesmente não conseguem ser
suficientemente hipócritas para fingir de gostar do que não faz sentido.
Elsa posta em fuga por um banal
javalizinho representa a confusão que existe na cabeça de quem sufocou
seus instintos, e com ele seus desejos, anseios, vontades, alegrias. A
bela e majestosa Elsa assujeitada por um bicho que com um só rugido ela
poderia por para correr reproduz o absurdo de dobrar a sensibilidade e
inteligência (o que é nobre e belo) à estupidez e à baixaria. É uma vergonha,
simplesmente uma vergonha.
A liberdade só é possível a uma
condição: que se botem as garras de fora. É preciso aprender a dizer
“sims” e “nãos” de verdade, a sorrir porque se tem vontade, e a ir e vir
porque é assim que sentimos. A liberdade somente é possível quando se é capaz
de defender o próprio território, espaço físico, emocional e mental. O
instinto de sobrevivência comanda discriminação e escolha, há coisas e
pessoas que não cabem em nossa vida, sem maldade e sem piedade. Há
relações, hábitos, pensamentos que não funcionam com nosso corpo e alma,
que apagam nossas emoções e nos tiram a alegria de viver.
Aliás, a alegria de viver está
associada à liberdade de ser, da qual os instintos são expressão.
Nota
9,3
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