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Em 1968, o best-seller de Charles
Portis, True Grit, teve sua primeira publicação – contava a história de
uma menina de 14 anos que buscava vingança pela morte do pai com a ajuda
de um federal e um Texas Ranger. O livro teve uma recepção tão favorável
em crítica e público que em 1969, John Wayne, lançava o filme que levava
o clássico de Portis para as telas.
Recepção favorável... Não é um fator
que os Coen estão acostumados a ter. Criando obras com um humor ácido,
pertinente e por muitas vezes brincando com estereótipos, os irmãos Joel
e Ethan conseguem proporcionar um tipo de cinema raro, obras que são
quase uma poesia técnica e de muito significado.
True Grit mantém a mesma fórmula usada
pelos irmãos em muitas de suas produções – o estereótipo, a ação, o tipo
de cenário e uma viagem pela proposta que o filme tem interesse em
analisar. Se em Um Homem Sério foi o questionamento da vida, aqui os Coen
mexem com o fator que move a sociedade: o dinheiro.
Escrito e dirigido pelos irmãos Ethan e
Joel Coen, baseado na obra de Charles Portis, o filme conta a história da
menina de 14 anos Mattie Ross que chega ao Forte Smith, no Arkansas, em
busca do covarde Tom Chaney, que teria matado seu pai por duas barras de
ouro antes de se embrenhar por território indígena. Para conseguir
perseguir Chaney e o ver enforcado, Mattie procura a ajuda de um homem
conhecido como o mais cruel federal da cidade – o impulsivo Rooster
Cogburn, que, depois de muitas objeções, concorda em acompanhá-la. O
bandido também é o alvo do policial texano Laboeuf, que quer pegar o
assassino e o levar ao Texas por uma boa recompensa.
É interessante quando levamos à nossa
mente imagens, diálogos e cenas que foram passadas em qualquer filme dos
irmãos Coen. Sempre bem construídos, os diálogos conseguem ter o tempo
correto em cada cena passada em tela, o que acaba ajudando o próprio
timing dos atores e a construção de seus personagens.
Um grande exemplo é a garotinha de 14
anos vivida pela impecável Hailee Steinfeld e que serve como nossa guia
para a história que se passa. Nós vemos quase que a obra inteira por seus
olhos e seus ideais. Preste atenção na cena em que ela conversa pela
primeira vez com Cogburn – somos guiados por ela até uma porta de um
banheiro onde o personagem de Bridges começa a dialogar e salientando a
demora que levará o que ele foi fazer ali. Em nenhum momento o personagem
é mostrado nessa cena e só acompanhamos o diálogo hilário e, já, a ótima
química que começa a se estabelecer dos protagonistas do passeio que
iremos enfrentar.
É impressionante a confiança e o
brilhantismo dos Coen nesse trabalho. A apresentação de Cogburn para o
espectador só acontece quando o mesmo é apresentado através dos olhos da
Mattie. Veja, por exemplo, a magnífica cena do interrogatório. A cena
começa com a personagem entrando no ambiente meio receosa do que irá ver
e começa a fazer uma aproximação devagar até ver por completo o
personagem de Bridges. A câmera, nessa cena, começa mostrando a parte de
trás das vestes formais das pessoas presentes no interrogatório,
mostrando sinais de que o personagem de Cogburn estaria sendo cercado por
essas pessoas. Bridges só vai ganhando forma aos poucos, conforme a
personagem de Steinfeld vai se aproximando. Os Coen fazem uma aula de
apresentação de personagem e já mostram qual será o destino do próprio
personagem no final da obra. Note o sol presente nas costas de Cogburn o
tempo inteiro e o desconforto que isso dá no personagem.
A aula de diálogos dos Coen também é um
show à parte, trazendo amostras do que acontecerá no próprio filme e
brincando com as referências e estereótipos dos personagens. Frases como:
“Texas Ranger, seu jeito pode até ser arrepiante lá em sua terra, mas
aqui pode gerar graça”, “Não preciso comprar Uísque, sou policial, eu
confisco” ou “Uma mulher divorciada falando em decência” são hilários e
brilhantes. Sempre ministrado pelo timing excepcional de todo o elenco.
Aliás, a segurança dos atores e
naturalidade em que saem os diálogos eleva ainda mais a obra. Jeff
Bridges está fantástico dando verdadeira bravura ao seu personagem (com o
perdão do trocadilho), conferindo uma voz mais arrastada – quase
inaudível, parecendo que o personagem está sempre bêbado e relembrando
seu personagem de Crazy Heart, criando um personagem carismático, sujo e
sincero.
Criando uma personagem forte, sólida e
que não se intimida Hailee Steinfeld é um achado. Mostrando aspectos
sutis da personagem em todas as cenas e diálogos, fica responsável por
conduzir o espectador por aquele mundo e explorar o que aquela terra tem
para oferecer. Veja, por exemplo, a cena em que somos apresentados a
personagem Mattie, logo depois da morte de seu pai e a personagem
pergunta: “Por que é tão caro um caixão? O espírito já se foi.” Em
contrapartida, a personagem negocia a vingança de seu pai, não mais se
preocupando com o dinheiro, mostrando o que realmente importa para
Mattie. Ao passo que Matt Damon transmite a competência de sempre.
O trabalho do diretor de fotografia
Roger Deakins, que já havia trabalhado com os Coen em “Um Homem Sério” e
“Onde os Fracos não têm vez”, também é brilhante. Aqui, empresta sua
qualidade de mostrar os cenários de faroeste com competência e
brilhantismo. Deakins em muitos momentos prioriza uma lente grande
angular, mostrando todo o cenário – belíssimo trabalho de Dechant – em
tela e colocando os personagens cavalgando ao longe, sem grandes
iluminações e dando mais atenção para o ambiente em que se situam.
Se em 1969 achávamos que John Wayne
havia chegado lá, em 2011 ficamos com a impressão que não. O verdadeiro
trabalho a ser considerado é essa nova obra-prima que os Coen apresentam.
Os irmãos que sempre prometem trazer um cinema diferente, onde as piadas
são sempre inteligentes, onde o clima de brincadeira está presente em
muitos momentos, onde os diálogos constroem personagens com um
brilhantismo natural. Se você não notar isso, pegue apenas um dos
melhores diálogos do filme e veja a proposta, o significado e o que será
o destino dessa frase. Tudo tem um propósito. E quando a nossa linda protagonista
pergunta para Cogburn “Tu não vai enterrar ele?” e o personagem de
Bridges responde que “O chão está congelado. Se quiser um enterro digno
tem que morrer no verão”, aí que sabemos: vimos um filme dos Coen em que
uma única frase pode
Premiações
e Indicações:
Oscar
Melhor Filme : Ethan Coen e Joel Coen - Indicado
Melhor Diretor : Joel Coen e Ethan Coen - Indicado
Melhor Ator : Jeff Bridges - Indicado
Melhor Atriz Coadjuvante : Hailee Steinfeld - Indicado
Melhor Roteiro Adaptado : Joel Coen e Ethan Coen - Indicado
Melhor Fotografia - Indicado
Melhor Direção de Arte - Indicado
Melhor Figurino - Indicado
Melhor Mixagem Som - Indicado
Melhor Edição de Som – Indicado
BAFTA
Melhor Filme Ethan
Coen e Joel Coen - Indicado
Melhor Ator Jeff Bridges -
Indicado
Melhor Atriz Hailee
Steinfeld - Indicado
Melhor Roteiro Adaptado Ethan
Coen e Joel Coen - Indicado
Melhor Fotografia - Vencedor
Melhor Design de Produção - Indicado
Melhor Figurino - Indicado
Nota
9,0
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