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xARTE DO MARANHÃO
Eliézer Moreira Filho(*)
Até meados dos anos
90 houve uma dinâmica cultural conduzindo o processo artístico maranhense.
O Banco do Estado do Maranhão editava em 1994 o livro Arte do Maranhão 1940
– 1990, referencial das artes plásticas daquele período, e Guia de
Pesquisa, a fim de orientar a pesquisa para confecção daquele compêndio de
arte.
No século XXI,
livro de arte somente o de Francisca Flames Lima, intitulado A Temática
Feminina na Produção Escultórica de Celso Antonio de Menezes, de 2009.
Alguns novos pintores surgiram e os mais antigos se consolidaram. Foi um
tempo em que o comércio de artes florescia. Foi o tempo das galerias de
arte, como a galeria do Beco, de Zelinda Lima e Violeta Parga, da Meia
Morada, de propriedade de Roldão Lima, gerenciada por Lena Santos, da Caixa
Econômica Federal, coordenada pela Ana Elizabeth Oliveira da Cunha, da
Fundação da Memória Republicana, no Convento das Mercês, da Arte da Terra,
de Elzanira Ferreira, da Nagy Lajos, da Secretaria de Estado da Cultura, da
Éden, de Pierre Barroso, da Enise Maciel, de José Nilson Maciel, da Jesus
Santos, de José de Jesus Santos, do SESC, do Palacete Gentil Braga, da
Universidade Federal do Maranhão e a do Museu Histórico e Artístico do
Maranhão. O século XXI encontrou funcionando apenas as galerias do Museu
Histórico e Artístico do Maranhão, e do SESC, de modo descontínuo. A
Galeria do Palacete Gentil Braga extinguiu-se com a reforma do prédio! A
Galeria Nagy Lajos jaz sob proteção oficial. As novas galerias que
surgiram, Escritório de Artes Fátima Lima, Galeria do Hotel Brisamar, Galeria
da Escola da Magistratura, Galeria Hum, de Ana Luiza Nascimento, Espaço de
Artes Márcia Sandes, na Procuradoria Geral de Justiça, Morada das Artes e,
episodicamente, em hotéis, funcionam de modo intermitente, recebendo obras
de arte quando de seus lançamentos e vernissages. A exceção é a Galeria Hum
e o Escritório de Artes Fátima Lima, que instala uma feira anual dedicada à
arquitetura de interiores, quando celebra um artista plástico maranhense, e
a Morada das Artes, na Praia Grande, que mantém mostras de seus artistas e
de alunos de artes de sua escolinha, coordenada pelo artista plástico Luis
Moraes. Os artistas hoje estão presentes com mais constância em
vidraçarias, lojas de artesanato, lojas de molduras, lojas de decoração e
mobiliário e pequenos comerciantes, que negociam com bricabraque. A
novidade cultural é a Prefeitura Municipal de São Luís, que, através de sua
Fundação Cultural, inaugurou em junho de 2010, uma galeria de exposições de
arte na Avenida Vitorino Freire – Anel Viário. Nada mais! Verifica-se que
após os anos 90 pouca coisa foi produzida, tanto assim é que raros são os
novos artistas que se sobressaem neste panorama local. A maioria acentuada
dos bons artistas ainda são aqueles que estão catalogados no livro Arte do
Maranhão 1940 – 1990. Isso mostra que houve pouco progresso na produção de
arte plástica daquele período para cá. Os novos artistas que exitosamente
se transferiram para outras paragens ainda são os mesmos: Marçal Athayde,
Fernando Mendonça, Cosme Martins. De Geraldo Reis, que foi para a
Inglaterra, nada se sabe, assim como de Reinaldo Brito, que migrou para o
sul. Em 2010 retornou ao Maranhão o pintor Rubens Amaral, que havia se
radicado no Rio há muito tempo. Retornou e foi embora, por não encontrar
clima para aqui continuar a produzir arte. Os artistas que expõe
internacionalmente são Péricles Rocha, Dila, Jesus Santos, Cordeiro, e
poucos mais. Os mesmos. Não há catálogos de arte disponíveis. Não há uma
agência cultural de informação a disposição do público e daqueles que nos
visitam. As vernissages oficiais são amadorísticas. Não existe um site
oficial de informação cultural. Não se oferecem folders, não contemplam as
exposições sequer etiquetas informativas nos quadros e esculturas expostos.
A divulgação é pobre e fica na dependência da atenção dos jornalistas que
cobrem a área. Os interesses econômicos nacionais estão hoje privilegiando
o Maranhão. Apesar do aporte de investimentos privados ser elevado,
atraindo trabalhadores, técnicos, e executivos para a implantação e
funcionamento desses projetos, continua ocorrendo um grande marasmo na área
cultural, o que nos leva a supor com preocupação, que tais empreendimentos
possam trazer de suas origens os bens culturais que aqui não lhes são
ofertados, com qualidade. Os únicos bens culturais que aqui se oferecem são
as danças da cultura popular, que se tornaram o produto cultural único da
terra. Fora disso não há cultura, ou parece não haver. Alguma reação se
observa na área da literatura e história, onde se anotam algumas
contribuições positivas de uma feira anual de livros que, espero, se
consolide, e alguns magros e avulsos lançamentos de livros. Excetuam-se os
lançamentos ocorridos em 2009 na Academia Maranhense de Letras. Proporcionalmente,
no interior do Estado, ocorre uma efervescência maior, como acontece em
Caxias, em Imperatriz e em Barra do Corda. Na capital, as livrarias não
passam de meia dúzia, para um público de um milhão de habitantes. São:
Poeme-se, na Praia Grande; Nobel, nos Shopping São Luís e Tropical; Atenas
(já fechou) e Vozes, na Rua do Sol; Leia-Mundo, no Shopping Jaracaty (que
igualmente encerrou cedo suas atividades ali) e Tambores, no Shopping do
Automóvel. Para compensar o encerramento das livrarias Atenas e Leia-Mundo,
instalou-se, em 2011, a livraria Resistência Cultural, na Avenida dos
Holandeses. Paradoxalmente, enquanto os programas federais dedicados a
cultura, promovem a instalação de uma biblioteca em cada município
brasileiro, a tradicional e única biblioteca pública da cidade está fechada,
arruinada, com seu valioso e raro acervo correndo risco de perecimento. A
outrora Atenas Brasileira, que um dia tentou se parecer com aquela da
Grécia Antiga, é coisa do passado, parecendo tão distante quanto a da
Antiguidade Clássica. A valiosa coleção de gravuras organizada por Arthur
Azevedo continua sua trajetória silenciosa e subterrânea, já numericamente
desfalcada de grandes nomes da arte mundial. Os nossos valiosos prédios
coloniais desabam cotidianamente. Já nem merecem destaque no noticiário
local. Não despertam mais interesse. Os órgãos de preservação são tão
exigentes que ninguém se anima em recuperar um caríssimo imóvel histórico
para destiná-lo apenas à degustação contemplativa de seu proprietário. Não
há programas de incentivos à manutenção do patrimônio histórico. Não
existem projetos de destinação social, educativos, de saúde pública, de
assistência social, de habitação, de urbanização para a área histórica. As
entidades se satisfazem em punir. Crêem, assim, estar cumprindo seu dever
oficial. Os órgãos públicos de preservação estão mais perplexos que a
sociedade que os mantêm. Enquanto isto ocorre, os prédios desabam. Há
logradouros em que persistem em pé apenas as fachadas dos casarões. O miolo
já se foi. Numa cidade da pré-amazônia, em que a volumosa precipitação
pluviométrica acontece concentradamente em um único período do ano, já se
pode imaginar a velocidade do arruinamento do patrimônio. A cidade se
subdividiu em duas: a nova, que ainda vai adquirir sua personalidade e
merece do setor público alguma atenção, e a antiga, que ainda é o nosso
orgulho, berço da nossa humanidade urbana, mas vai ficando mais velha a
cada dia. Os órgãos de preservação deveriam adotar um cadastro fotográfico
destes espécimes arquitetônicos, antes que desapareçam. Porque, com
absoluta certeza, eles desaparecerão! Que reste a memória iconográfica.
Assim, o desavisado turista cultural que vier a São Luís poderá usufruir, a
partir de um computador, o panorama urbano-arquitetônico colonial da
cidade, sem suar o percurso, confortavelmente instalado numa sala provida
de ar refrigerado, podendo, ainda, levar para sua origem um CD colorido
daquela cidade que não mais existe. E, se a competência for maior, nem
precisará vir. De sua sala residencial bastará ligar o computador e acessar
as belezas coloniais que não existem mais, sem sair de casa. Na ausência de
uma cultura estratificada, os que estão chegando, na hipótese de se
constituírem em significativa massa crítica, trarão uma nova cultura. A
deles, e... para eles. E a nossa passará a ser história, mais ou menos como
já é hoje, quando o presente já se torna também história.
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Eliezer Moreira Filho
São
Luis, MA, Brazil
Eliézer
Moreira Filho é Bacharel em Direito formado pela Universidade do Brasil,
Pós-Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas,
ex-Deputado Estadual e Federal Constituinte, ex-executivo público, tendo
exercido por dez vezes cargos de Secretário de Estado, entre outros, no
Maranhão, e funções técnicas no IPEA, na Secretaria de Planejamento da
Presidência da República e no Ministério do Planejamento, em Brasília. É
autor dos livros "Memórias de Meu Tempo" e "Histórias Que
Os Jornais Não Contaram" e também "Um Gênio Esquecido - Celso
Antonio e o Modernismo", este inédito. É colecionador de artes
plásticas e atualmente confecciona um catálogo de artistas plásticos
maranhenses, para ser divulgado pela Internet.
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