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Tudo começou há aproximadamente 20
anos, quando Stanley Kubrick leu o conto "Superbrinquedos Duram o
Verão Todo", do inglês Brian Aldiss. O cineasta começou a
desenvolver ideias para transformar o texto em filme, rabiscou esboços, e
chegou à conclusão que seriam necessários efeitos especiais de uma
qualidade ainda não existente no mercado cinematográfico naquele momento.
Decidiu então congelar o projeto. Mais recentemente, Kubrick convidou
Steven Spielberg para dirigir o que seria o novo filme, reservando para
si as funções de produtor. Ambos trocaram muitas ideias e rascunhos do
que poderia ser o desenho de produção a ser adotado, mas Spielberg não
chegou a dar um "sim" definitivo. Com a morte de Kubrick, em
março de 1999, Spielberg decidiu finalmente assumir o controle de
Inteligência Artificial. A Amblin, a Dreamworks (ambas empresas de Spielberg),
a Warner e a Stanley Kubrick Productions levantaram os US$ 90 milhões
necessários à produção, e o roteiro foi assinado pelo próprio Spielberg.
Como quase sempre acontece nos filmes dirigidos pelo pai do E.T., a
edição ficou a cargo de Michael Kahn, a fotografia com o polonês Janusz
Kaminski, e a trilha sonora com John Williams (que desta vez baseou-se
claramente na trilha de Blade Runner).
Sim, o filme é sobre um garoto-robô que
deseja ser um menino de verdade. Tudo se situa num futuro não definido,
onde o Professor Hobby (William Hurt) expõe todo o seu descontentamento
sobre o atual estágio de desenvolvimento dos robôs, criaturas muito
parecidas com os humanos - fiscalmente - mas incapazes de expressar
sentimentos. A ideia revolucionária de Hobby seria criar o primeiro robô
criança da história, um pequeno andróide programado para fazer parte de
uma família e, consequentemente, para amar e ser amado.
Após alguma polêmica, o casal formado
por Henry e Monica (respectivamente Sam Robards, filho de Jason Robards,
e Frances O´Connor, de Palácio das Ilusões) decidem finalmente adotar
David, o garoto-robõ magnificamente interpretado por Haley Joel Osment,
de O Sexto Sentido. Trata-se de uma tentativa desesperada de
"substituir" Martin, o filho do casal que se encontra há anos
em coma profundo.
A discussão sobre a tecnologia, a ética
da robótica, os problemas de adaptação, a crise existencial de um menino
androide que se identifica com a história de Pinóquio, a crise do casal
que o adotou, tudo isso é apenas o começo do filme. A pontinha de um
iceberg cinematográfico que revelará cada vez mais surpresas.
Inteligência Artificial tem o incrível
poder de se renovar a cada cena, de surpreender o mais atento dos cinéfilos
que acha que já viu tudo sobre o tema. Quando o espectador se prepara
para a ficção científica, o filme vira um drama. Quando o drama se
aprofunda, ele se transforma numa estonteante aventura. E quando o desfecho
parece próximo, o roteiro dá um salto gigantesco. No tempo, no conteúdo,
na emoção. As pessoas saem do cinema atônitas. São perguntas e mais
perguntas que ficam perambulando pela mente do espectador durante
minutos, horas ou mesmo dias após o término do filme. Uma delas chama a
atenção: "Você esperaria dois mil anos para ouvir um eu te amo?".
Justamente por ser diferente e
imprevisível, criativo e fora dos padrões, o filme não tem feito nas
bilheterias norte-americanas o sucesso comercial esperado. Certamente os
devoradores de pipoca que lotam as salas daquele país vão precisar de
mais dois mil anos de evolução para atingir um estágio de desenvolvimento
que permita a compreensão das questões levantadas por Spielberg.
Inteligência Artificial é um filme que
dá vontade de ver novamente, assim que se acaba de vê-lo pela primeira
vez.
É inegável: as pessoas podem gostar ou
não gostar, mas assistir a Inteligência Artificial é uma experiência única
e diferenciada no cinema. Não raramente o espectador se pergunta: onde é
que Steven Spielberg vai chegar? O que foi que Stanley Kubrik pretendeu
fazer? As respostas não virão facilmente. Após quase duas horas e meia de
projeção, o espectador será brindado com pelo menos uma certeza: a de que
viu um filme incomum. Um raro roteiro que não se prende às fórmulas
desgastadas que dominam a produção norte-americana.
Dizer que Inteligência Artificial é
sobre um garoto-robô que deseja ser um menino de verdade é pouco. Muitíssimo
pouco. O filme é um caldeirão de referências que mistura de Bela
Adormecida a Blade Runner. E que não teme passar do drama à ficção, ao
romance à aventura e de volta à ficção com impressionante desenvoltura.
Olhem, vamos deixar desse academicismo
todo, eu poderia continuar falando horas e horas sobre esse filme e,
mesmo assim, ainda teria muita coisa a ser falada.
Vou terminar confessando, sem medo ou
vergonha, que eu chorei!
Nota 9,0
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