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Baseado no romance “Três Reinos”,
escrito por volta do ano 1350 por Luo Guanzhong, John Woo para sua “A
Batalha dos 3 Reinos” também chafurdou e pescou perolas marciais no,
também épico e bem mais antigo, livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu.
Na verdade, as lições de estratégia
militar escritas por Sun Tzu seis séculos antes de Cristo já inspiravam
os líderes dos três feudos que, dos anos 220 a 280 d.C., durante a
dinastia Han, guerrearam entre si para defender sua parcela no território
chinês. O clímax dessa luta, a batalha dos penhascos vermelhos, são o
foco da história contada por John Woo.
No filme, somos logo apresentados a Cao
Cao (Zhang Fengyi), primeiro-ministro do imperador que, vindo de uma
vitória militar, consegue convencer o fraco regente a bancar outra guerra
- desta vez, contra os supostos rebeldes do sul, os reinos dos senhores
Sun Quan e Liu Bei. O exército de Cao Cao é radicalmente mais numeroso,
mas a aliança formada pelos estrategistas de Sun Quan e Liu Bei - respectivamente,
Zhou Yu (Tony Leung Chiu-wai) e Zhuge Liang (Takeshi Kaneshiro) - tenta
tirar a vantagem de Cao Cao na base da inteligência.
Woo faz um trabalho formidável no
início para não deixar que a salada de nomes, reinos e hierarquias confunda
o espectador. Formidável porque somos apresentados de forma didática a
cada um dos senhores feudais, generais e conselheiros (inclusive com
legendas, como num tokusatsu), com cada personagem sendo tipificado de um
jeito (há o general brutamontes, um outro bom de montaria, há o estrategista
que ama a mulher, outro que sabe apreciar música), e esse resumão, ao
invés de reduzir o potencial desses personagens, consegue nos dar um
painel amplo do que esperar, quando a batalha começar.
É como se nos fossem apresentados os
"jogadores" de um imenso game de estratégia. Não por acaso, os
personagens vividos pelos astros Kaneshiro e Tony Leung são os
verdadeiros protagonistas. É na boca dos dois que John Woo coloca as
frases mais sintéticas do pensamento de Sun Tzu - guerrear é proteger
civis, respeitar as leis da natureza etc. E enquanto os
"rebeldes" do sul são mostrados como benfeitores (ensinando
soldados a ler e escrever), Cao Cao é pintado como o militar extremado,
que usa até futebol no treinamento de seus homens. Ironicamente, Cao Cao
é tido, historicamente, como um dos principais responsáveis por preservar
os escritos de Sun Tzu para a posteridade.
Uma vez que a arte da guerra de Sun Tzu
se baseia numa ética própria - repare como o pior xingamento que alguém
pode receber no filme é "traidor" - John Woo consegue licença
para exercitar todos os seus dons sem a preocupação de estar
glamourizando a violência. Planos de gruas, travelings circulares, zooms
velozes... Todo tipo de ferramenta de cinema de ação, mesmo os mais
cafonas, como as fusões de imagens, caem bem na mão do cineasta. A
Batalha dos 3 Reinos é um épico digno do nome, e o senso de ritmo do
diretor, que faz 150 minutos de sessão parecer menos, é invulgar.
Vale assistir e ter em casa esse longa
– o primeiro do cineasta em sua pátria materna desde Fervura Máxima
(1992) – com outros similares, como os épicos de Zhang Yimou, de Herói e
O Clã das Adagas Voadoras. As diferenças ficam evidentes nos momentos
mais movimentados da ação. Enquanto Yimou privilegia a coreografia da
luta, o bailado dos corpos que não necessariamente implica um bailado também
da câmera, John Woo pensa com cabeça de montador. Há algum balé e pouco
wire-fu em A Batalha dos 3 Reinos, mas a verdadeira coreografia ali é de
câmera. O compasso das lutas não se dá na encenação, mas no jogo de
aproximar, rodar e afastar que Woo impõe na montagem.
E aí fica difícil não se render ao
estilo de John Woo. Não falta nem a pomba!
Nota
9,25
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