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Há filmes em que uma atuação é tão
impactante que ofusca tudo o que há ao redor dela. Há poucos meses foi
visto nos cinemas brasileiros um caso do tipo, com Javier
Bardem sendo bem superior ao filme que estrelava, Biutiful. Algo parecido acontece com VIPs. A diferença é que aqui tudo foi elaborado de forma
a servir de escada para que Wagner Moura brilhe
intensamente. E o eterno capitão Nascimento não decepciona.
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VIPs não é precisamente situado,
tanto em localidade quanto em época. Sabe-se que a história começa seis
anos antes, mas quando não é informado. A apurada direção de arte planta
algumas pistas que respondem a questão, como a foto de Débora
Bloch em Bete Balanço e a presença da canção "Eu
Sei", da Legião Urbana, na rádio. Meados dos anos 80, pode-se
deduzir. Já a neutralidade dos sotaques impede a definição da localidade,
o que na verdade pouco importa. O salão de Sílvia (Gisele Fróes, bem)
pode estar em qualquer lugar do país, já que as características peculiares
da região não influenciam. Importante mesmo é o ambiente familiar,
formado por Marcelo (Wagner Moura), sua mãe e o pai, ídolo de infância.
O apelido "Bizarro" faz jus
ao Marcelo ainda jovem, em pleno colégio. Estranho e com o dom de imitar
a voz e os trejeitos dos colegas de classe, ele vive deslocado em seu
mundo. Também em casa isto acontece, já que sonha seguir o pai e se tornar
aviador. Extremamente inteligente e sem qualquer trava moral, Marcelo
passa a usar seus dons para aplicar pequenos golpes, de forma a viabilizar
o sonho de voar. É o bom malandro, aquele que burla a lei para conseguir
vantagens pessoais sem provocar grandes prejuízos. Em meio aos golpes
surge a constatação de que Marcelo passa a acreditar piamente que é o
personagem criado, anulando por completo sua verdadeira identidade. Ou
seja, as mudanças não são apenas uma questão de sobrevivência ou de
realizar um sonho antigo, mas também trazem consigo um forte lado psicológico.
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Em meio às transformações, VIPs conta
com um Wagner Moura inspirado. Cada fase da vida de Marcelo ganha
características próprias, indo da postura aos trejeitos e modo de falar,
passando ainda pelo visual do próprio ator. É possível, apenas ao olhar,
identificar qual personagem Marcelo encarna. A cara de pau exibida em
momentos que poderiam ser constrangedores, como a presença no camarote
vip no Carnaval de Recife, e as imitações que realiza, das mais simples
até a antológica performance como Renato Russo, valem o ingresso.
VIPs é um filme divertido, que se
apoia na bela performance de Wagner Moura. O elenco de apoio é competente
e dá conta do recado, mas diante do desempenho de seu protagonista acaba
sendo ofuscado. O mesmo vale para a história em si, que não desenvolve
bem o lado psicológico mas se sustenta no insólito das situações vivenciadas
por um legítimo picareta brasileiro. Trata-se de um show solo, daqueles
que o astro sempre tem músicos acompanhando mas cujos nomes poucos se
lembram. O filme vale, acima de tudo, por Wagner Moura, apesar da direção
de arte e a fotografia também merecerem destaque.
Nota 8,0
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