CRÍTICA DO FILME VELA AO CRUCIFICADO, dirigido por Frederico
Machado.
Marco Aurélio Fialho
O último filme de Frederico Machado, Vela ao Crucificado, baseado no
conto homônimo de Ubiratan Teixeira, merece uma atenção especial do
espectador , ou melhor, uma atenção redobrada. A simplicidade da narrativa
escamoteia uma armadilha que está intrínseca no filme.
O que assistimos na tela é um velório e um
sepultamento de uma criança carente. Mas muitas vezes as aparências nos enganam
e em Vela ao Crucificado isto
acontece do início ao fim. O que está em jogo na nova obra de Frederico
Machado é mais que a denúncia ou a revolta pelo fato em si (a morte de uma
criança pelos confins do Brasil), esta nada mais representa que a camada
superficial do filme, pois o que o distingue como obra de arte não é o que
vemos na tela, mas sim o que não está visível.
A grandeza estética e cinematográfica desta obra está no extra-campo, não
está na diegese do filme mas sim o tempo inteiro presente... presente na
ausência. O que vemos não é explicitamente o tema em si e sim o seu
desdobramento, a presença de uma ausência, ou a sua face mais dolorida,
mais visível.
Assim os temas principais estão fora do filme,
não é sobre a morte de uma criança, são a injustiça e o descaso, ou até
mesmo a inexistência de um Estado interessado em resolver os seculares
problemas de seu povo. A morte como expressão do abandono histórico-social.
A imagem mais latente dessa ideia está em outra ausência marcante, a do
caixão para dar um enterro digno ao menino.
Nessa perspectiva, os personagens do filme
poderiam ser qualquer família pobre de nosso país. O filme retrata um
estado de abandono profundo, manifesto duplamente tanto na vida quanto na
morte, enfim, um abandono integral. O recorte narrativo escolhido por
Frederico privilegia apenas um ponto de vista, o da família vitimada. Ele
nos expõe o que nossos olhos desconhecem, o que a perversidade dos poderosos
insiste em jogar para debaixo dos tapetes.
Mas não são só os poderosos os personagens
ausentes, devemos incorporar também nessa lista os vizinhos, o povoado em
que moram e a solidão do pai no sepultamento. Frederico nos incita a
refletir sobre a exclusão, mas faz questão de a materializar por meio do
poderoso uso das imagens.
Frederico Machado concebe uma adaptação
cinematográfica nada literal à obra literária, muito pelo contrário, ele
opta por retirar personagens presentes no conto, como o do chefe, assim
como detalhes explicativos e diálogos extensos, que se fossem colocados no
filme seriam um excesso. Essas subtrações só enriqueceram a narrativa
fílmica ao permitir e exigir do espectador uma maior participação de sua
atenção, pois cabe a ele preencher os vazios e as ausências presentes na
obra.
Com Vela ao Crucificado, mais uma vez Frederico
nos brinda com um cinema autoral e corajoso, completamente engajado em
preocupações humanistas, mergulhado em um acentuado senso de justiça,
construtor de imagens fortes e impactantes, como as da cena final onde
vemos a mãe grávida a desferir socos em sua própria barriga em um ato
premonitório acerca da tragédia e do sofrimento que está a porvir, um ato
de revolta contra a impotência do homem no mundo contemporâneo.
A relação de extrema tensão entre a morte e a vida permeia o todo o corpo
do filme. A vida como expressão da própria morte iminente. A vela como
elemento simbólico central da narrativa a representar vidas que se esvaem,
tão céleres quanto a duração de sua chama, que aponta ainda a fragilidade
dos personagens retratados, sem falar no próprio abandono físico de sua
presença, em perfeita comunhão com a situação existencial dos personagens.
O tempo, esse, como personagem oculto na trama,
subterrâneo, mas presente em toda composição fílmica e cuidadosamente
pensado no roteiro e na montagem, inserido nos momentos cruciais e dramáticos
do filme, como na cena em que a vela é acesa e colocada nos restolhos da
outra, já consumida pelo fogo (e pelo tempo, é claro!). Cena esta de enorme
precisão e organização do tempo diegético do filme, anunciadora da elipse
que viria a seguir - o personagem anuncia que a vela durará até as seis
horas da manhã, hora do sepultamento da criança.
Em Vela ao Crucificado Frederico Machado mais
uma vez ratifica, e até amadurece, em relação às suas obras anteriores, o
seu conhecimento acerca dos recursos e possibilidades inerentes à linguagem
cinematográfica. O saber utilizar o cinema como escolha consciente do que
será visto pelo espectador, daí provém o acerto na escolha dos planos e
enquadramentos, assim como o estilo seco, e sem excessos, explorado com
maestria pela montagem Raimo Benedetti.
Frederico consegue imprimir um elemento
estético poderoso em Vela ao crucificado, relacionar sempre a imagem com
algo que está ausente nela, mas que ao mesmo tempo é anunciado pela própria
imagem. É impossível não relacionar os personagens do filme, suas ações,
seus sentimentos a uma miséria intrínseca ao continente Brasil. Não é
anunciado as razões da morte do menino, mas também não é preciso, os
motivos são conhecidos por todos, só não os são os seus gritos de desespero,
na certeza de que o sofrimento é praxe, não exceção, essa é a força do
filme, onde ele implacavelmente nos atinge.
A morte está tão impregnada no filme que ela
está presente de forma contundente na fotografia precisa de Ralf Tambke e
na direção de arte realizada, aliás, pelo próprio Frederico Machado. O elemento
mais importante nessas construções fílmicas está expresso no marrom das
paredes de estuque da casa, e ela está logo na construção da primeira cena,
quando o pai sepulta seu filho, e vemos a terra em close a cobrir o corpo
do menino, assim como na última cena, onde o filme termina com a câmera na
parede de estuque, igualmente marrom.
O filme tem dois cenários básicos, o do
cemitério e o da casa de estuque, este último o principal cenário, que pela
cor marrom predominante nos remete à própria ideia de sepultamento, como se
a família inteira estivesse claustrofobicamente em uma grande cova. A
fotografia então respeita esse princípio estético e contempla um ambiente
terroso e sombrio, onde o marrom úmido do estuque é mais um elemento na
composição plástica do filme. Mais uma vez, como em seus dois filmes anteriores
(A Litania da Velha e Infernos) há uma preocupação pela construção de
texturas, apesar de salientarmos que em Vela ao Crucificado a textura
visual seja a camada predominante.
Mas é claro que Frederico trabalha com outras
camadas. A sonora é singela e utilizada em momentos pontuais e
significativos. O som da oração realizada pelo irmão do menino morto é uma
ladainha que vai se repetindo de tal forma que incomoda até ao pai. Ela
constrói uma atmosfera lúdica do universo, representa uma ação desesperada
na busca de sentido e/ou de alguma esperança de melhora. No universo do
abandono é preciso se segurar em algo, fazer o lamento assumir algo de
concreto, mesmo que seja pela exaustiva repetição da reza.
Outro som interessante que nos leva à reflexão
é o do choro da mãe, é um choro que vem de fora da diegese, como se o seu
lamento não fosse apenas seu, mas também o de outras mães que choram
prematuramente pelas vidas perdidas de suas crianças.
A música em Vela ao Crucificado só aparece na
cena final, intercalada com o som da mãe socando a própria barriga grávida,
para ampliar a sensação de drama e dor dos personagens, para reafirmar a
tragédia cotidiana dos miseráveis no Brasil e a inutilidade de se viver em
condições sub-humanas.
Diante das inúmeras interrogações despertadas
pelo filme, ficamos a refletir sobre o papel do cinema na história. Segundo
o historiado francês Marc Ferro, "o filme tem a capacidade de desestruturar
aquilo que diversas gerações de homens de Estado e pensadores conseguiram
ordenar num belo equilíbrio . Ele destrói a imagem do duplo que cada
instituição, cada indivíduo conseguiu construir diante da sociedade. A
câmera revela seu funcionamento real, diz mais sobre cada um do que seria desejável
de se mostrar. Ela desvenda o segredo, apresenta o avesso de uma sociedade,
seus lapsos. Ela atinge suas estruturas... A ideia de que um gesto poderia
ser uma frase, ou um olhar um longo discurso é completamente insuportável:
isso não significaria que a imagem, as imagens sonoras, o grito dessa
mocinha ou essa multidão amedrontada constituem a matéria de uma outra
história que não é a História, uma contra-análise da sociedade?"
(extraído do livro Cinema e História, Ed. Paz & Terra, 1992).
Baseado na ideia, sugerida por Marc Ferro, do
filme construir uma contra-análise da sociedade, podemos compreender Vela
ao Crucificado como um filme, que a despeito da visão oficial, colabora para
retirar os véus que nos obliteram acerca das profundas mazelas provenientes
dos grotões da miséria brasileira, nos proporcionando, por meio de imagem,
som e movimento, uma visão crítica contundente do mundo em que vivemos.
Com sua obra, Frederico Machado faz emergir a
monstruosidade de um poder cínico ao desatar os fios invisíveis que
manipulam uma sociedade, ainda profundamente marcada pela desigualdade.
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